Inspirações: Picos da Europa, Ruta del Cares
- Irina Marques

- 8 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Os Picos da Europa representam uma das paisagens mais agrestes e fascinantes da Península Ibérica. Composto por três maciços principais (Oriental, Central e Ocidental), este Parque Nacional é um paraíso para o estudo da geomorfologia cárstica. É neste cenário de exceção que encontramos a Ruta del Cares ("Garganta Divina"), um trilho que não é apenas uma caminhada, mas uma lição viva de história e geologia. Eu não era para fazer o trilho, não ia preparada fisicamente mas, há coisas que nos desafiam mais e para quem fez o Caminho de Santiago este seria como uma tarde de sol no parque, portanto arrisquei.

Começar o percurso em Caín de Valdeón é como entrar pelas portas dos fundos de um reino fantástico. Esta pequena aldeia de Leão, rodeada por picos que parecem querer tocar o céu, é o ponto de partida para o troço mais dramático e estreito da rota.

Logo nos primeiros quilómetros, percebemos que não estamos num trilho comum. O caminho foi esculpido diretamente na rocha, obrigando-nos a atravessar túneis baixinhos com janelas naturais. Muitos destes túneis mantêm as marcas das picaretas e da dinamite usadas há mais de um século. Passar por eles exige uma espécie de vénia constante à montanha — ou, pelo menos, uma atenção redobrada para não levar para casa um “galo” como recordação geológica.
Este trilho nasceu de uma necessidade puramente industrial. Entre 1915 e 1921, a empresa Electra de Viesgo realizou uma proeza quase impossível: construir um canal de 12 quilómetros para desviar a água do rio Cares até à central de Camarmeña. 500 operários trabalharam nestas paredes verticais. Sem os equipamentos de segurança modernos, utilizavam cordas de cânhamo para se suspenderem no abismo. Infelizmente, teve um preço alto, com a perda de 11 vidas durante os trabalhos. É impossível caminhar por aqui sem sentir um profundo respeito por quem moldou esta passagem à força de braços.

O caminho que usamos foi alargado nos anos 40 e 50 para permitir a passagem de pequenos carros de transporte para a manutenção do canal, que ainda hoje continua a serpentear ao nosso lado, ora visível, ora escondido nas entranhas da montanha.
À medida que avançamos em direção a Poncebos, o desfiladeiro abre-se e a altura torna-se a protagonista. Atravessamos estruturas que testam a nossa relação com a vertigem. Durante o trilho atravessamos duas pontes: Ponte de Bolín que foi reconstruída após ter sido destruída por uma rocha gigante durante a Guerra Civil Espanhola e a Ponte de los Rebecos, que são os verdadeiros donos de tudo isto, com o seu equilíbrio invejável, observam-nos com um ar de superioridade enquanto saltam entre fendas que desafiam as leis da física.
O rio Cares, que corre lá no fundo com uma cor turquesa quase hipnótica, conseguiu escavar este desfiladeiro de 1,5 km de profundidade ao longo de milhões de anos.

Eu não fiz o trilho todo que, a extensão de 24 km, apenas fiz 12 kms. Conforme disse não ia preparada fisicamente e do lado de Cain para Poncebos a partir do km 6 o trilho modifica tanto a nível de paisagem como de exigência, existe uma grande subida que requer alguma preparação.
A Ruta del Cares é uma sucessão de perspetivas infinitas. É um monumento à persistência humana encravado numa natureza que se recusa a ser domesticada. Se fores com espírito de aventura, vais descobrir que os Picos da Europa não se visitam apenas — sentem-se nos músculos e guardam-se na alma.
Como artista, percorrer a Ruta del Cares é como caminhar por dentro de uma escultura inacabada de proporções gigantescas. Para quem, como eu, vive mergulhada em linhas e formas, este lugar é uma lição de vida orgânica. O contraste entre o cinzento austero do calcário, que parece absorver a luz de forma diferente a cada hora do dia e o azul turquesa quase irreal do rio Cares, cria uma paleta que nenhuma mistura consegue replicar com total justiça.

Saí de lá não apenas com as pernas cansadas, mas com a mente a fervilhar de novas ideias para a minha série In-finito. Afinal, a natureza é a mestre suprema da abstração: ela não precisa de fazer sentido para ser absolutamente perfeita.
Foi um dos trilhos mais bonitos que alguma vez fiz. Mas vamos ser sinceros, ainda bem que comecei em Caín porque se tivesse começado pelo lado de Poncebos com aquela subida inicial que parece desenhada por alguém que odeia a humanidade.
Começar em Caín é o truque de mestre para enganar o corpo em que entramos logo no cenário de filme, os túneis distraem-nos da fadiga e, quando damos por nós, já estamos tão embrenhados na “Garganta Divina” que voltar para trás dá mais trabalho do que continuar. É a prova de que, tal como na pintura, a escolha da perspetiva certa muda absolutamente tudo, inclusive a nossa vontade de continuar a caminhar!




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