top of page

A doença criativa

Quando se retira a arte de uma artista, o que ocorre não é apenas uma interrupção de atividade, mas uma falha metabólica. Para quem nasceu com a vontade de criar, a expressão não é um acessório ou um luxo é o órgão pelo qual ela processa o oxigênio do mundo para o corpo. Sem o pincel, a caneta ou o palco, o sistema imunológico da alma começa a colapsar.

A doença manifesta-se primeiro como uma pálida desorientação. O mundo que antes era um catálogo de texturas e significados, torna-se subitamente achatado, cinzento e ruidoso. Sem a tradução da arte, a realidade torna-se crua demais para ser digerida. É como se a artista perdesse a pele e cada som fere, cada luz incomoda. O cotidiano torna-se insuportável.

O que não é expelido pela criação, apodrece internamente. A tinta que não mancha a tela começa a correr, densa e tóxica, pelas veias. As palavras não ditas inflamam a garganta e as histórias não contadas pesam nos ossos como uma artrite. A artista adoece porque o seu corpo torna-se um reservatório de águas paradas, e a beleza represada, quando não encontra vazão, transforma-se em melancolia crónica ou em febres que nenhum termómetro consegue medir.

No final, a saúde de uma artista depende da sua capacidade de devolver o mundo ao mundo, transformado por sua visão utópica. Tirar-lhe a arte é condená-la a um exílio dentro de si mesma, onde o silêncio não é paz, mas um vazio que corrói a carne até que ela se esqueça de como respirar sem ritmo, sem cor e sem propósito.

Comentários


bottom of page