A geometria do sentir
- Irina Marques

- 22 de jan.
- 2 min de leitura
A minha história com a pintura não começou numa galeria ou num momento de inspiração súbita, mas sim no silêncio profundo de uma depressão em 2018. Foi ali, na procura de um sentido para o vazio, que as mandalas surgiram como o meu primeiro refúgio. Naquele tempo, a arte era uma ferramenta de sobrevivência, um exercício de meditação onde eu tentava organizar o caos interior através de círculos e formas concêntricas. Esse encontro com o meu "eu" mais profundo, através de estados meditativos, foi a semente de tudo o que sou hoje: uma busca constante pela harmonia no meio da imperfeição.
Com o tempo, essa introspeção expandiu-se e deu lugar a novas explorações. A figura feminina surgiu como uma fase necessária, um diálogo com a psicologia, a sociologia e os mitos que nos moldam. Mas a vida, na sua natureza imprevisível, trouxe-me o embate do sismo de Marraquexe em 2023, um evento que fragmentou a minha visão e dissolveu as formas em manchas de incerteza. Foi um período de rutura, onde a segurança que tinha conquistado foi testada pelo medo e pelo pó. No entanto, o que poderia ter sido um fim tornou-se o catalisador para a minha metamorfose mais madura.
Hoje, percebo que o meu estilo atual — uma abstração geométrica vibrante — é o culminar de toda esta jornada. É como se tivesse regressado à ordem das mandalas de 2018, mas agora com a segurança de uma mulher que já não pinta apenas para se curar, mas para celebrar a sua própria autonomia. Influenciada pela "necessidade interior" de Kandinsky, encontrei na geometria uma forma de filtrar o mundo e transformá-lo em algo novo. A minha pintura já não é uma reação ao que me acontece, mas uma afirmação de quem eu sou: uma artista que encontrou a sua voz na liberdade das formas que se recusam a estar terminadas.
Nesta exposição, cada tela carrega o nome de "Metamorfose". São narrativas em aberto, onde deposito a minha maturidade e o meu entusiasmo pela vida que urge ser vivida. Ao olhar para estas obras, convido cada espectador a encontrar nelas o seu próprio reflexo e a sua própria narrativa. Porque, tal como eu descobri entre mandalas, traumas e renascimentos, a arte é um organismo vivo — um espelho onde a nossa alma nunca para de crescer, de se transformar e, finalmente, de voar.
Diálogos artísticos,
Irina Marques



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