A abstracção como linguagem interior
- Irina Marques

- 12 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 15 de jan.
Em 2023 algo na minha vida mudou totalmente a forma como abordo as obras de arte, o Sismo de Marraquexe, eu estava na cidade quando ocorreu. Foi nessa fase que as minhas obras começaram a recorrer à abstração. Não como afastamento da realidade mas sim, como uma tentativa de tornar a minha arte mais honesta. Foi o momento em que a realidade se impôs de forma crua, instável, impossível de organizar em imagens reconhecíveis. O que ficou não foi uma cena, mas um estado onde predominou a tensão, fragilidade e a suspensão.
A abstração aproxima-se desse lugar, ela não representa o acontecimento mas sim a reverbação que ele deixa no corpo e na memória. A cor, o ritmo e os gestos ansiosos tornam-se os únicos meios para dizer o que não se deixa traduzir - a forma de explicar o que é complexo demais para ser descrito.
Por vezes pedem-me para explicar a arte mas ela nasce do meu desconforto com a ambiguidade. Quando me pedem leituras, narrativas claras e significados estáveis entendo que não seja para o espectador se aproximar da obra, mas para reduzir a incerteza que ela lhe está a provocar. As minhas obras perdem a densidade quando são excessivamente explicadas.
A abstração é mesmo um território instável, requer presença e não respostas. Não pretende esclarecer mas sim sustentar a dúvida - e daí a sua honestidade - aceitar que nem tudo precisa de ser compreendido para ser verdadeiro e que o sentido porque vir do encontro e não da explicação.
E se eu disser que maior parte das vezes não pinto para agradar ao olhar mas sim para me escutar. O mesmo acontece quando escrevo. O gesto abranda. Pintar torna-se uma escuta interna, onde a mão responde a impulsos que antecedem a forma e o significado. Ela articula tensões, ritmos e silêncios que existem antes das palavras. Podemos ver a obra como algo pulsante.
Neste processo de escuta activa, a abstração surge como a minha forma de organizar o meu caos interior - não no sentido de o domesticar por completo, mas para lhe oferecer uma estrutura na qual possa existir, onde reside: sensações dispersas, memórias fragmentadas, impulsos contraditórios que encontram na tela um campo onde se relacionam.
A abstração surge assim, como necessidade, numa vã tentativa de dar coerência ao que é, internamente, instável.
Diálogos Artísticos,
Irina Marques



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