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Ponto, linha, Plano - Uma necessidade interior

Quando me encontro à frente de uma tela em branco, algo em mim desperta. Eu não vejo um vazio à espera de tinta mas sim uma espécie de arena de forças invisíveis. Para mim e para Kandinsky, que me acompanha sempre em estado de espirito no meu atelier, pintar é como dirigir uma orquestra, onde os músicos são formas.


Passo a explicar o processo, onde a geometria deixa de ser uma aula de matemática e passa a ser um sentimento puro.


O Ponto: O início do silêncio.

Para mim, o Ponto, é aquele gatilho inicial. É o som mais curto, o elemento mais introvertido mas com uma força magnética brutal.

O que Kandinsky diz é que, o ponto, é o resultado do choque entre o meu instrumento e a superfície. A ponte entre o nada e o tudo. Ás vezes pinto um único ponto numa composição e sinto que ele está ali, a observar-me, pronto a explodir ou ficar em silêncio absoluto. É a semente de toda a criação.


A Linha: O ponto que decidiu viajar.

Se o ponto é repouso, a linha é a aventura. Ela só nasce quando aplico uma força, seja o movimento do meu braço ou a pressão minha mão e arranco o ponto da sua zona de conforto. As linhas têm as suas próprias personalidades: as retas, que são mais decididas, são movidas por uma força única e sabem exatamente para onde vão; as angulares, essas são as rebeldes, são as que têm conflitos internos e mudam de direção abruptamente, criando uma espécie de tensão e drama; e as curvas, que é a diplomacia em forma de traço, possuem um ritmo mais orgânico, quase musical.


Kandinsky dizia que a linha é o "ponto em movimento", e eu sinto isso na ponta dos dedos. Uma linha diagonal, nunca está parada, ela está sempre a subir ou a descer, cheia de ansiedade e dinamismo.


O Plano: A Pista de dança.

O plano é o suporte, mas não pensem que ele é passivo. É o organismo vivo com a sua própria gravidade. Se estiver em cima é mais leve, mais solto, é onde as formas "flutuam". Se for em baixo, tudo ganha peso, as formas parecem mais sólidas, mais presas à terra. Quando componho, não estou apenas a "desenhar em cima" de algo, estou a negociar com o plano. Se coloco uma forma fria (um azul, talvez) numa zona "pesada", estou a criar uma conversa. E é aqui que a magia acontece - a Necessidade Interior.


"A cor é o teclado, os olhos são os martelos, a alma é o piano com muitas cordas."


Pintar abstração, seguindo esta cartilha de 1926, é libertador. Não preciso de pintar uma maçã para falar de doçura, nem um mar para falar de imensidão. Uso o ponto, a linha e o plano para criar um som visual que só a alma consegue ouvir.


Irina Marques

Baseado na obra Ponto, Linha, Plano de Wassily Kandinsky.

Edições 70




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