A linguagem silenciosa da abstração
- Irina Marques

- 15 de jan.
- 3 min de leitura
Convido o observador a, perante as minhas obras, permitir-se a observar.
Gostava que olha-se antes de pensar, há sempre qualquer coisa que chama primeiro - uma cor, uma linha ou uma estrutura.
De seguida, pergunte-se: o que sente? Desconforto, harmonia, tensão, felicidade? É que muitas vezes na abstração as respostas não vêm em palavras mas sim em sensações físicas - é uma experiencia corporal.
Consegue sentir o ritmo? É que tal como na música a pintura vive de aceleração, intensidades, pausas e respiração que pulsam nos espaços mais fechados, outras em repetição, aquelas que se destacam outras em linhas mais suaves.
Agora, permita-se a aceitar não saber. E esta, é a parte mais libertadora! Não existe uma leitura correta. A sensação que a pintura desperta em si hoje pode não ser a mesma de amanhã ou de outro dia.
Durante muitos anos ouvi dizer que a pintura abstrata era difícil de compreender, não dizia nada ou até frases do tipo "até o meu filho fazia isso" e confesso que no início do meu caminho artístico senti essas inquietações. Mas com o tempo percebi que o tipo de arte que estava a fazer não se explicava - sentia-se!
A forma como levei o observador a experienciar a minha arte foi a forma intima como eu como criadora e observadora experienciava a pintura abstrata. Senti que ela falava uma linguagem silenciosa mas poderosa.
Quando pinto, não estou propriamente a representar objetos, figuras ou paisagens. A abstração veio da minha necessidade de trabalhar com estados internos - aquele "caos interno" que me costumo referir que são emoções difusas, silêncios, memórias sem forma definida - consigo dar corpo ou forma ao que é invisível.
Um artista que me ensinou e desvendou muito sobre a abordagem que tenho à obra de arte foi Kandinsky - a obra não descreve mas toca. Ela atua diretamente sobre o observador, atravessa o pensamento e chega ao lugar mais profundo. É um encontro entre a obra e quem a olha. Confesso que é isso que me fascina na abstração, essa capacidade de funcionar como um espelho - aquilo que vemos diz tanto sobre nós quanto sobre ela. A pergunta que mais gosto de ouvir não é "o que é que significa?" mas sim "o que é que desperta em mim?"
Quando a obra nasce cada pincelada carrega uma intenção mesmo quando é intuitiva. Há um equilíbrio constante entre o controlo e a entrega, momentos de decisão e outros que sigo o que a obra está a pedir.
A pintura abstrata surgiu de momentos de grande introspecção, quando fiz os Caminhos de Santiago de Compostela e quando experienciei o Sismo em Marraquexe, ela ensinou-me a abrandar, a questionar e a confiar na intuição - aceitar que nem tudo precisa de explicação ou resolução. Que neste mundo de respostas rápidas e certezas a abstração abre espaço a escutar o interior e que ele também comunica - através das emoções.
Aprender a escutar o silêncio, estar presente, disponível e aberto deixar que algo se mova dentro de nós - mesmo que não saibamos exatamente o quê.
Para mim a abstração é esse lugar de escuta onde não procuro respostas , procuro presença. Pinto e olho - para sentir o que não tem nome. Entro no mundo da cor, gesto e silêncios e permito que a pintura me atravesse - e é aí, nesse espaço onde nada é fixo que a obra acontece.
Diálogos artísticos,
Irina Marques

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