Museu do Imaginário (parte I)
Há alturas que temos que arrumar coisas, isto acontece-me uma vez ao ano ou mais coisa menos coisa… E quando me lembro de arrumar as coisas é quando elas ficam mais desarrumadas, porque sou tão meticulosa e distraída também que o que eu estava a fazer deixo de o fazer porque encontrei outra coisa e de repente o meu mundo é essa nova coisa que passado dez minutos me distraio novamente… Há coisas que não valem a pena explicar.
Mas hoje dei comigo a criar uma história ou narrativa. E tudo porquê? Porque resolvi arrumar as minhas obras. Não fisicamente mas digitalmente. E era aqui que poderia abrir uma discussão em torno do AI mas prefiro não tocar nesse assunto pois isto dava posts e posts.
Pois é, lembro-me quando comecei a criar, para adquirir rotinas e foco “apostei” nas mandalas.

Desenha-las acalmava-me a mente.
Mais do que um exercício estético, desenha-las foi a minha meditação forçada. Enquanto a minha cabeça fervilhava de ideias, as mandalas davam-me a ilusão que conseguia controlar o caos do universo. O universo interno. Desenhei sobre mim.

Aquelas circunferências concêntricas foram a minha boia de salvação. Na altura eu precisava de centrar energias então cada traço repetitivo funcionavam quase como um “cala-te e concentra-te” e este período ensinou-me uma lição preciosa.

A repetição, por vezes, não é monotonia, é cura. Este abraço geométrico em forma de cor provou-me que para por uma mente em ordem só precisamos mesmo de desenhar círculos até a alma respirar fundo.
Para variar, cheguei a fazer construções megalómanas dentro dessas mandalas. Sim, porquê fazer algo tão simples quando posso complicar com mais vinte camadas de detalhe, micro-padrões e simetrias tão minuciosas que deixam qualquer pessoa a perguntar-se: “Onde é que eu fui arranjar tanta paciência?” (spoiler alert: nem eu sei!)

Mas aqui está o feito deste período, contra todas as expectativas, consegui levar até ao fim. Para quem cria, sabe perfeitamente que, terminar uma obra com este nível de obsessão pelos detalhes é uma grande vitória sobre a paciência.
Foi nesse momento que descobri o superpoder da pintura. No mundo que parece desenhado para fragmentar a nossa atenção em mil pedaços a cada segundo, estar ali, com o pincel na mão, é a única coisa que consegue me fazer desligar do ruído exterior.
A pintura consegue fazer o que mais nada consegue fazer: tirar-me o caos das ideias aceleradas e obrigar-me a aterrar num único ponto. Onde as horas perdem a validade e a cabeça finalmente sossega.
A megalomania das mandalas não era excesso, era a minha mente a encontrar o próprio ritmo para finalmente descansar a pintar.
Como acontece a tudo o que ganha vida própria, a mandala começou a ficar pequena para aquilo que eu precisava de dizer. Os padrões começaram a empurrar as bordas, as formas quiseram respirar fora da simetria e a cor simplesmente recusou-se a ficar contida dentro daquele perímetro tão direitinho. A mandala começou a transbordar, a partir o seu próprio recipiente e a tomar conta da tela inteira.

A geometria continuava lá, essa nunca me abandonou, mas já não precisava de pedir licença nem de se fechar num círculo para fazer sentido. Estava a dar-se a grande evasão.
No próximo post explico a próxima fase.




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