Estágios, uma retrospectiva, a terceira fase.
- Irina Marques

- 4 de mai.
- 2 min de leitura
A terceira fase, e a que me encontro hoje em dia, talvez seja a fase do "eu quero, posso e pinto!". Aqui o desafio já não era a tinta mas sim a identidade. Se na fase anterior eu era uma investidora em materiais nesta fase tornei-me uma investidora em mim mesma (não no sentido egocêntrico!). Deixei de pintar para o olhar do "outro", sendo ele aquele critico imaginário que pairava no meu ombro, para pintar para me agradar. Segui um lema - a minha arte não precisa de ser uma unanimidade mas sim, um reflexo honesto das minhas conversas internas.
E que conversas! O meu diálogo com a tela tornou-se um misto de intimismo e absurdo. Voltei a apaixonar-me pelas cores vibrantes e por criar diálogos visuais que roçam o ridículo, mas que fazem todo o sentido no meu universo. Tentei ser minimalista, comecei por minimizar tanto que, de repente, dei por mim a complicar tudo outra vez.

A mudança para Braga foi o catalisador desta metamorfose. Depois de um período de isolamento em Gaia, onde as paredes pareciam partilhar do meu silêncio, regressar a esta cidade trouxe-me uma luz nova. Foi aqui que a minha arte saiu do domínio privado para o espaço público. Comecei por frequentar grupos de poesia, onde as palavras ajudaram a moldar as formas que eu ainda não sabia nomear, e lancei-me no desafio dos mercados de arte. Criei novas amizades e até lancei o meu próprio livro.

Hoje, olho para este percurso com uma profunda gratidão. O que começou em bancas de mercado evoluiu para convites e exposições em diversos locais — espaços que me acolheram e onde tive a honra de expor o meu trabalho mais do que uma vez. Guardo um enorme respeito por cada espaço cultural que confiou na minha visão. Foi graças a essas oportunidades que a minha pintura deixou de ser apenas um exercício pessoal para se tornar um diálogo com quem me visita. A estes locais, e às pessoas que os dinamizam, devo a confiança que hoje sinto.
Quanto à equipa técnica, os meus gatos continuam a exercer as funções de chefes de equipa com a arrogância habitual.
Ainda há dias em que as cores decidem não combinar e as ideias não surgem, mas está tudo bem. Já não entro em braço de ferro com o erro, incorporo-o na obra. Aceitei que o percurso é uma aprendizagem continua e que a minha identidade artística não é um destino onde cheguei, mas um território que se expande e se modifica a cada quilómetro percorrido. Transforma-se nos locais que visito, absorve a luz de novas paisagens e molda-se nas conversas com as pessoas que conheço. Cada encontro, cada viagem e cada nova perspetiva deixam um rastro na minha paleta, forçando-me a reinterpretar quem sou através do que pinto.



Comentários