Estágios, uma retrospectiva, a segunda fase.
- Irina Marques

- 29 de abr.
- 2 min de leitura
Depois de sobreviver à mesa da cozinha e da sala passei por uma transição - a fase das escolhas conscientes - onde percebi que para as minhas obras terem outra vida, tinha que olhar para os materiais de uma forma diferente. Deixei de ser a aventureira com o pincel para passar a ser a investidora de pigmentos.
Passei para tintas com nome e sobrenome, comecei a investir em tubos de "grau de artista" e senti logo a diferença na primeira pincelada em que a tinta já não parecia querer fugir de mim e eu já não me encontrava num braço de ferro com o material. Os meus dois ou três azuis "a sério" faziam o trabalho de mil.
Quanto aos pinceis, o meu pincel "faz-tudo" finalmente ganhou companhia, comprei dois ou três que finalmente faziam a diferença especialmente para não "mudarem de penteado" a meio das sombras. Digamos que entramos numa relação de respeito em que eu os tratava bem (com sabão próprio e tudo) e eles não me deixavam pelos perdidos nas minhas obras.

Nesta exploração, descobri também os meus limites biológicos. Era alérgica a pintar a óleo, não podia sentir o cheiro do óleo linhaça nem da essência de terebentina. Descobri muito rápido que a paciência para esperar que uma obra secasse não estava no meu ADN, as minhas pinceladas são nervosas e urgentes demais para esperar semanas por um azul.
Quanto aos meus auxiliares, os gatos, passaram a ter uma nova etiqueta passaram a ser chefes de equipa. Eles também sentiram uma mudança. Já sabiam que aquele cavalete na mesa era para ser contornado com elegância e que as novas tintas tinham cheiros mais interessantes (e proibidos). A remuneração mantinha-se a mesma mas a supervisão agora era feita do cimo de uma cadeira.
Mesmo com materiais melhores, a minha filosofia não mudou, pintava porque precisava não porque queria expor. O objectivo não era a galeria de arte mas sim a satisfação de ver os meus pensamentos ganharem forma, a minha mão já conseguia traduzir melhor o que a minha cabeça imaginava.
Creio que esta fase foi o meu "voto de confiança" silencioso. Precisei apenas de dar às minhas mãos as ferramentas que a minha persistência já merecia. Mal eu sabia que depois destas experiências com os materiais, o próximo desafio não seria a tinta mas a minha própria identidade.


Comentários