Crónicas de uma Refém de Gatos
- Irina Marques

- 6 de abr.
- 2 min de leitura
Este fim de semana decidi que necessitava de tempo, então assinei os papéis de um divórcio temporário com o pincel, arrumei todas as tintas e fugi para o Gêres para cumprir uma promessa com o silêncio, introspecção e zero obrigações. O local não poderia ser melhor – S. Bento da Porta Aberta, nunca tinha ficado nesta zona do Gêres. Instalei-me numa cabana isolada, um cenário perfeito para aquela paz profunda que só a montanha oferece, eu o meu companheiro e o meu pequeno bloco de notas para anotar toda a inspiração que este cenário idílico fornece.
Pelo menos foi o que eu pensei.
No primeiro dia, há hora de jantar apareceu uma gato a miar com aquele ar de que sabe que sou uma “alma artística sensível” (tradução: presa fácil), claro, eu lá lhe dei um petisco… Qual é o meu espanto quando me aparecem mais dois e um deles estava grávida. Nunca, em circunstância alguma, alimentem a fauna local se não estiverem preparados para as consequências logísticas!
No segundo dia a noticia “Buffet de Artista” espalhou-se mais depressa que verniz fresco.
Ás seis da tarde o meu companheiro preparou-se para o ritual sagrado de acender o grelhador. Abriu a porta com a dignidade de quem vai conquistar o fogo e imaginem! O gato da noite anterior fazia esperinha. Mas nós, precavidos com a situação – porque estas visitas felinas são coisas que nos acontecem sempre nas férias – compramos uma grande lata de ração e uma caixinha mais pequena. O problema é que desta vez o comitê de boas-vindas não se reduziu a três gatos mais sim a cerca de dez! Veio a família toda, primos, tios e provavelmente um advogado felino para garantir que as quotas de proteína era cumpridas.
O coro de miados começou mal a maçaneta girou. E não era um miar de saudade, era uma manifestação sindical. Estava oficialmente dedicada a gatos e aquilo que era para ser um retiro para busca de novas ideias transformou-se subitamente numa gestação de crise de uma cantina de luxo, onde a única funcionária, naquele espaço, era eu!
Fui ao Gêres como uma artista em retiro e acabei como empregada de mesa de um restaurante de grelhados clandestino para felinos sem escrúpulos.



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