Estágios, uma retrospectiva, a primeira fase.
- Irina Marques

- 26 de abr.
- 2 min de leitura
Dizem que são precisas 10 mil horas para ser mestre em alguma coisa, não sei, não sei se alguma vez serei... Pretenderei ser? Só sei é que ao fim de alguns aninhos já consigo distinguir 50 tons de azul (baseado na cor e no gosto) e mais importante ainda! Parei de beber a água dos pinceis mas... há alturas que é necessário estar atenta!

Na primeira fase eu não tinha um espaço ao qual eu chamasse de atelier, tinha uma mesa na cozinha e na sala onde podia trabalhar mais ou menos à vontade a determinadas horas. A nível dos pinceis era um kit básico, aqueles que tinha desde o 12º ano do curso de artes. Confesso que nunca fui de desenhar com alguma finalidade, não tinha o desafio de expor em algum lugar e o meu objectivo seria mais que uma árvore não se parecesse com um brócolo espetado num palito.
Na altura recrutei dois auxiliares, os quais ainda tenho hoje, a remuneração é casa e comida... claro que falo dos meus gatos. Que são modelos, secretários e críticos de cores.

Quando comecei a pintar não era um projecto de carreira ou uma identidade, foi um impulso que eu encontrei de encaixar no meio da rotina e uma ajuda a processar diversos sentimentos. Lembro-me das minhas paletas de reciclagem, antes de usar uma paleta de plástico, as minhas cores misturavam-se em tampas de frascos, pires, e alguns pedaços de cartão que sobravam. Cada gota de tinta era preciosa (ainda o é).
Tinha também o pincel que servia para quase tudo. Ainda o tenho, gosto de pintar com pinceladas pequenas e nervosas. E as minhas obras secavam encostadas a móveis ou num canto qualquer para ninguém tropeçar nelas, não tinha espaço para cavalete e a crítica mais importante era um simples "está a ficar bonito" a caminho da cozinha ou quando espreitavam os meus projectos.
Por último, falando na cozinha, tinha que descobrir a melhor hora de sol para tirar fotografia, visto que os restantes compartimentos da casa eram todos muito escuros.
A parte do plano de limpeza era um pano velho de cozinha cortado aos quadrados, que por si só, já se tornava uma obra de arte abstracta. Todas as minhas tintas cabiam numa única caixa de sapatos, quando necessitava de tintas tirava tudo dentro dessa caixa e no final arrumava todo o meu atelier nessa caixa portátil.
Antes de começar a pintar em telas boas, fiz muitas experiências em pedaços de cartão, papéis de acrílico e noutros papéis porque assim o medo de errar não custava muito.
Olhando para trás, dentro daquela caixa de sapatos estava o que viria a ser o meu futuro. E hoje em dia as telas são melhores, os pinceis multiplicaram-se e já não desenho as árvores que parecem brócolos mas a essência ainda continua a ser aquela, a curiosidade de misturar tintas em tampas. A arte precisa apenas de uma superfície para nascer e uma vontade teimosa de imaginar e criar.
Da próxima vez, conto-vos como passei da caixa de sapatos, para uma caixa ainda maior e como tudo se tornou um pouco mais caótico. Não sou mestre e muitas das minhas "manias de início" ainda se mantêm.




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